multicores

ando bege por fora. roupa, calça,  blusa, sandália. pele (sem sol e brisa do mar há tempo demasiado). cabelo (foram-se as luzes: naturais – olha a falta de sol – ou artificiais – olha a falta de tinta). 

ando bege, só por fora.

por dentro, tingida de multicores. vermelho da indignação (com tudo, não, com a injustiça contra tantos). azul da nostalgia do passado ainda presente nas memórias (já se foram 40 anos delas, quase não me acredito em mim). verde das folhas que sacodem a mente, agitada em buscar a calma. 

ainda procuro o violeta, ali no canto. nesse lugar que chamam de alma (prefiro chamar de vontade de fazer-se). acho ali pequeno ponto que pode derramar e espalhar, tingindo toda eu. as outras cores saem de si e se deixam manchar. tudo sangrando, derramamento, fluxo. 

só cor, qualidade do ser. não morena, nem mulata, desbotada, bege ou parda. por dentro, multicores: a cor que não se vê.

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caminho

meu caminho é longo, e carrego muita bagagem. livros nos poros, rios no sangue, calos nos pés, milhares guardados na memória. 

despojo-me de tudo, quase tudo.  guardo as palavras mais leves extraídas dos livros (todas as outras, atiro ao vento). dos rios entorno a água, preservo o movimento da corrente. da memória, apago os milhares, faço deles restar apenas o sopro do afeto um dia concedido.

sobra-me pouco de mim, do meu peso. olho pra trás: bolsos esvaziados, malas desfeitas, a bagagem ficou ali naquela última curva da estrada. 

meu caminho é longo, começa agora. mais leve, sigo. os calos se arestam sozinhos, basta colocar-se na estrada, de pés descalços. calos nos pés, pés no chão. matéria corpo que escolhe desfazer-se, roçando suavemente as pedras do caminho. 

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Problemas de coração 

Um homem descobre uma parte de si tão escondida do mundo, que nem ele mesmo sabia existir. Foi nesse pedacinho que ele sentiu brilhar seus olhos ao ouvir o choro do primeiro filho. Depois da chegada do grande menino, esse pedaço do homem não parava de crescer – e doer. Foi ao médico: a pressão subiu, irremediavelmente. E aí vieram a menina, e depois o caçula. O diagnóstico: era agora um cardíaco. O peito batia forte, mais do que o homem desejava. Artérias e veias não eram mais suficientes pra fazer circular tudo que tinha naquele sangue. Feito oxigênio, o amor tinha entrado nos pulmões, pelos poros, em cada célula sua. O resultado: alguns cateterismos. De tempos em tempos, pequenos infartos. Mas não adianta: é sem cura. Uma vez doente da paternidade, nada cura esse homem. Nem a parceira (im)perfeita ao seu lado. Nem os muitos comprimidos diários. Melhor desistir, pai. Seu coração nunca mais vai se curar. Nós somos sua doença. Mas também o seu remédio. Amor que intoxica. Amor que cura. Amor, enfim. 

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sem tempero

contra o hiperbólico raio gourmetizador (da experiência humana), mais vale receita-pensamento de Blanchot. o neutro.

chuchu. ragu. fubá. puro. sem sal. sem nada. 

sabor se volta a sentir limpando as papilas gustativas (da vida). 

voltar a provar uma vida insípida. só dessa degustação do nada se pode voltar a sentir o sabor dos acontecimentos.

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engasgados

O carro parado na rampa da garagem, espero ele abrir o portão. Às vezes, o porteiro demora um pouco, quase nunca tanto tempo que eu tenha de colocar o pé no freio. Hoje, o portão engasgou: abre, fecha, abre, fecha, abre enfim. Tempo suficiente pra eu o ver sair correndo da guarita, acenando para mim. Piso no freio, abro a janela. 

Aí, o eixo do mundo gira.

Ô Dona Vanessa, deixa eu dizer tchau pra senhora que hoje é meu último dia aqui. 

Que isso, Ismael? Como assim? 

Ele me conta tudo. Que veio de Recife e é hora de voltar. De ficar com os pais, cuidar deles. Que veio pra cá há 4 anos, um menino de 24 anos. E que aprendeu muito, mas sente falta de casa. Que terminou um relacionamento aqui. E que o coração está dizendo que é hora de voltar pra casa. Me agradece pela convivência nos últimos anos. Diz que deseja tudo de bom pra mim e minha família. Que gosta muito da gente, “gente boa, Dona Vanessa”. E eu ouço e vou respondendo quase no automático: é isso mesmo, quando o coração manda é hora de voltar. Abrace seus pais. Curta, porque família é tudo. Enquanto escuto e respondo com uma expressão de espanto no rosto, pela urgência dessa despedida não calculada, fico imaginando a vida dele. Fantasio com a cena da volta pra casa que não verei: uma mãe, um pai, um homem que se acreditava menino e retorna mais homem pra casa. Abraços. Lágrimas. 

Mas agora vejo essas a apontar nos olhos dele enquanto se despede de mim, dizendo que é hora de voltar pra Recife, que vai abrir uma fábrica nova de peças de automóvel por lá, quem sabe aparece uma oportunidade… Fala tudo com a voz embargada. E eu já não sinto mais o pé no freio. Só o vento gelado que entra da janela do carro, apertando ainda mais o nó na garganta.

Preciso arrancar o carro. Me despeço, desejo sorte. E digo a ele que tudo vai dar certo. Voltar pra casa sempre dá certo. Arranco o carro (sempre há gente atrás esperando, a vida é isso, a pressa, a despedida não calculada, a pressa). Sem muita convicção, o pé no aceleradoe, o carro ainda sai devagar e observo lentamente pelo retrovisor enquanto Ismael, o porteiro, corre pra porta do prédio e ainda acena um adeus, sorrindo pra mim. O carro vai. Mas fui eu quem fiquei ali, na porta da garagem. Engasgada. 

Vai com Deus, Ismael. E obrigada. 

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Carta para Maria Luísa  (filha, desculpe por só falar disso agora)

Filha, noite passada, te deixei na casa da vovó. Você pediu muito pra dormir lá, aconchegadinha com aquela que atende a todos os seus desejos (principalmente àqueles que eu, como mãe educadora, nunca concedo). Eu deixei. E enquanto você pulava de alegria, e corria pelo apartamento fazendo a lista de atividades para a noite e manhã do dia seguinte (fazer um bolo pra tia Maria, colocar água nas plantas, dar comida pro cachorro, ver Peter Pan no Youtube…), eu sentei no sofá, ao lado do seu avô. E comecei uma conversa sobre a angústia que está aqui, guardada no meu peito, desde que comecei a ler demais, quase compulsivamente, na semana passada.

(Parêntesis 1: você não sabe ainda, mas seu avô é um dos seres mais politizados e bem informados que eu já conheci. Espero que ele viva muito ainda, pra você ter a sorte de fazer algumas perguntas e ouvir suas histórias sobre décadas da vida política do nosso país, que ele sabe retomar de cada canto da sua memória).
Enfim, eu e seu avô conversávamos. Eu contava a ele da minha angústia, e de como andei lendo opiniões de pessoas lúcidas que admiro, nos últimos dias, em especial, em função de uma tensão política que se instalou no país. Nessa conversa, puxamos vários textos e argumentos, tentando fazer sentido do que pode e deve acontecer para nos depurar enquanto democracia (se é que isso é possível), eu e seu avô. Seu pai também entrou no papo.
(Parêntesis 2: você talvez já tenha desconfiado, pelas conversas que testemunha – seu pai é outro dos seres mais politizados e bem informados que conheço. Lê, tem opiniões, sabe tanto que às vezes fica pessimista: acha que nada vai mudar. Ele se diz descrente da capacidade do ser humano de viver em sociedade. Mas é só aparência, desconfio eu. No fundo, ele acredita tanto na mudança, que sempre sonhou em ter você. Sonhou em ter uma filha, em educá-la, em colocar regras, ensinar o que é certo. Por isso ele te cobra tanto, entende? Um dia você vai entender, confia em mim).
Voltando a ontem: enquanto você entornava um tanto das canecas de água no chão da vovó, no seu esforço de aguar as plantas todas, já éramos 3 agustiados, também com muito medo da tempestade que se armava pra cair lá fora. Eu, seu avô e seu pai. Caçando textos online, de opiniões de diferentes fontes, dados e análises de jornalistas e veículos de credibilidade. Arriscamos nós também um palpite em uma análise de cenário complexa, a partir da leitura de tanta gente fera que, em resumo, teme pelo que vem por aí. Coisas como a que se lê nesse texto aqui:
Dá medo, né?
E aí, filha? Aí que ontem, logo antes de dormir, escuto uma bateção. Um panelaço, segundo li em alguns jornais que deveriam me explicar o sentido daquilo. Mas confesso que ouvi mais palavrões do que panelas. E fiquei pensando na agressividade das pessoas. Fique tranquila. Não estava querendo censurá-las por reclamar, filha. Mas pensando em como esse mundo em que as pessoas gritam toda sorte de coisas malucas me assusta. Porque tenho de ouvir os gritos, mesmo sem argumentos, ou mesmo não concordando com eles. Mas aí me veio imediatamente o pensamento: sabe o que é, filha? Esse mundo me assusta, mas é ele que quero pra mim, pra você. Um mundo onde as pessoas possam falar. Possam debater. Eventualmente, em circunstâncias graves, um mundo em que as pessoas possam até gritar. Prefiro ouvi-las a qualquer forma de silêncio. Mais ou menos como esse cara aqui diz:
E aí, Maria Luísa, nessa hora em que pensei como ando calada, sem ânimo pra brincar e fantasiar com você.  Deixa eu me explicar: é que estou pensando e tentando processar o momento que estamos vivendo. Até nas aulas de hoje, filha, gaguejei o dia todo. Me perdi nos pensamentos. Daí é que me veio o medo. Medo não, pavor. Pavor do cenário que vejo nas entrelinhas das análises de quem viveu o passado recente da história do nosso país (como seu avô). E esse cara aqui, que eu realmente adoro:
E se… E se desse momento complexo que estamos vivendo, não sobrar nada de bom? Nenhuma depuração dos nossos imensos problemas de ordem política e social? Seu avô acha que temos de viver esse momento (de fato, péssimo): uma espécie de carma do Brasil, que precisamos de pagar, como sociedade. Doa a quem doer. E não é que eu discorde dele: também acho que precisamos resolver, que tem de ter um basta. Só tenho pavor de que, no “chega” que vem aí, alguns sujeitos ocultos dessa história que lemos nos jornais se aproveitem do “chega” para expandir – modificar a ideia. “Chega” de corrupção, de impunidade. Ok. Está tudo uma baderna. Chega de liberdades. Chega? Alguém vai dar um basta nisso por nós. Quem? Não importa, desde que se dê um basta.
Mas importa, filha. Entende? Importa muito. Não adianta tirar tudo, jogar no lixo, e não colocar nada de bom no lugar. Isso eu li aqui:
É isso: nada de jogar fora a criança com a água suja do banho. Enfim, o que me assola, Maria Luísa, é a ideia de que possamos voltar para trás. Talvez uns 30 anos. Ou mais (quem sabe?). Me assola o pensamento de que estaríamos voltando não só para uma era de fim da liberdade de pensamento e expressão. Mas a que isso pode levar? A um outro tempo, em que há um certo e vários errados – e o errado, filha, é sempre o “outro”. O errado é a “vadia”, o “viado”, a “preguiçosa”, o “vagabundo”. Não raro, uma minoria já oprimida.
Talvez outro elemento tenha aumentado minha angústia: ontem foi também o dia internacional da mulher. E você acordou lá em casa, me deu uma flor de papel feita por você, contando pra mim e seu pai que sabia o porque desse dia: que era o dia de comemorar que mulher pode ganhar o mesmo que o homem. “Não é só porque o homem é mais forte que ele pode mais”, você disse, do alto de seus quase 5 anos. E pensei: ela deve ter discutido isso na escola. E ela entendeu. Ali, me dei conta, não é cedo demais pra essa conversa de política, filha.
Nesse instante, percebi o quanto o mundo da comunicação é precioso pra mim.
(Parêntesis 3: sua mãe também é politizada, mas de um jeito mais parecido com o da sua avó. Nós duas não temos memória: trocamos os nomes dos senadores, ministros, deputados. Mas sabemos de cor – de coração – quais ideias valem ser defendidas: as que protegem o ser humano de qualquer tipo de opressão).
Filha, o mundo da comunicação não é apenas minha profissão, ou vocação, mas é o lugar no qual compreendo ser possível construir uma sociedade melhor. Pra mim, pro seu avô. Mas sobretudo pra você, Maria Luísa. E pro Mateus, Manu, João Pedro, Vítor… Pros seu primos. Seus colegas de escola.
Começo agora a ver as pessoas falando abertamente na internet (está certo, às vezes sem muita escuta do outro). Mas ainda assim, falando nas redes sociais sobre temas espinhosos: ontem mesmo, foi sobre como a mulher deve ser dona das suas escolhas. Foi sobre o trabalho da mulher, o nosso corpo, o meu, o seu corpo, a liberdade, o prazer, o aborto. Sobre como a mulher deve ter direitos, deve ser respeitada. Mas esse é só um exemplo. Há muitas outras questões: penso enquanto leio sobre a legalização de drogas, sobre projetos sociais, sobre a economia, a violência contra as mulheres, os homossexuais, os negros, os marginalizados. as minorias… Enfim, tudo que me faz ter dúvidas, me faz questionar, ler mais para me preparar pro debate. Pro diálogo com o outro, principalmente se o outro diverge de mim. Pensei nos diálogos que me interessam, questões em que acho que precisamos avançar – como a das liberdades individuais. Essa, então, me aflige constantemente. E refleti: como sou sortuda. Eu posso pensar, posso saber mais, posso duvidar. E até mudar de opinião. Quer dizer, não sou exatamente sortuda, porque viver nesse mundo aberto não é resultado da sorte: essa liberdade eu herdei de gente como o seu avô, e muitos outros da geração dele, que lutaram por ela. Uma luta que vale a pena, filha. Isso, sim, é política.
Lembrei de uma conversa que tivemos com você: eu e seu pai, na época do segundo turno das últimas eleições presidenciais. Eu e seu pai debatíamos animados (nenhum de nós tinha muita certeza de sua decisão, mas pendíamos para lados opostos). Falávamos os nomes, pesávamos prós e contras. E você me falou: “mãe, é verdade que a Dilma é ruim? E o Aécio, ele é legal, mãe?”. E eu não conseguia te explicar nem responder nada, surpreendida que estava de te ver saber o nome dos candidatos. Só perguntei: “onde você escutou isso”. A resposta: “um coleguinha falou na escola que ela é horrível, só burro vota nela!”. Aí eu respirei fundo, pensei no que te falar, em como fazer chegar até você a complexidade desse momento que estávamos vivendo, e então te respondi: “filha, escolher o presidente é difícil, cada um tem uma opinião. Sabe o que é melhor? Você ainda não precisa saber nada sobre isso. Você é só criança, política não é pra criança. É coisa complicada, você ainda vai entender e aí poder pensar com sua cabeça. E votar. Por enquanto, não preocupa.”
Desculpa filha. Eu errei. Você não precisa votar, ainda. Isso é certo. Mas política, você já é. Não é coisa de adulto, não. É o mundo e a sociedade ao seu redor. Você está nela, desde que nasceu. Então, agora que entendi isso, posso te falar abertamente: perdoe minha ansiedade desses dias – que provavelmente vai piorar nos próximos meses, quem sabe anos. Estou acompanhando de perto tudo o que acontece no mundo que é meu, é seu, e de tanta gente que quero te ensinar a respeitar. Sobretudo, gente que quero te ensinar a escutar. Mesmo que isso signifique tentar extrair sentido de alguns tantos palavrões e batuques de panela (porque isso sua mãe sabe: toda fala tem sentido).
Seguimos escutando, filha. E vamos conversando. Vou tentar entender primeiro, para poder te explicar. Te ajudar a entender nossa sociedade, o mundo ao nosso redor. E assim achar um meio de construir o  bem comum. Sabe o que é isso, filha? Política. Coisa de adulto, coisa de criança. Coisa de gente que quer um mundo feliz, não só pra si, mas pra todos.
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casa vazia

o que se projetou há tempos no horizonte do desejo, em um instante desfeito: neblina dissipada, projeto apagado, fim. o que muito se quer, e não se realiza. perdeu-se?
nada. tirando o querer irrealizado, ainda resta eu. sou mais que mero desejo.
desejo é promessa. felicidade é agora. felicidade é esse lugar, onde o querer não mais me tem.
o querer, um hóspede estranho. convido a entrar – ocupa demais. convido a sair. na casa vazia do desejo, ali eu habito.

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